29 Setembro, 2008

Ainda mais carbono na atmosfera

O Projeto Carbono Global, esforço coordenado de vários grupos de pesquisa pelo mundo "para estabelecer uma base de conhecimento comum e consensual de apoio ao debate e à ação política para diminuir a taxa de aumento de gases do efeito estufa na atmosfera", acaba de lançar um balanço tenebroso, o "Carbon Budget 2008" (veja aqui uma apresentação PowerPoint sobre os dados). Resumo da ópera:

Concentração de CO2 na atmosfera - Subiu 2,2 ppm (partes por milhão), 10% acima da média 2000-2007 (2 ppm) e quase 50% acima da média dos últimos 20 anos (1,5 ppm). Ou seja, está ocorrendo uma aceleração no aumento da camada de gases que agrava o efeito estufa. Estamos 38% acima dos níveis de 1990, ano de referência do semidefunto Protocolo de Kyoto. Chegamos a 383 ppm, contra 280 ppm antes da Revolução Industrial. É o maior valor nos últimos 650 mil anos.

Emergentes na frente - Países em desenvolvimento, em especial China e Índia, mas também o Brasil, já respondem por mais da metade das emissões mundiais de CO2. Queima de combustíveis fósseis (carvão mineral, óleo e gás natural) e produção de cimento são os maiores responsáveis pelo aumento. Em 2006, a China ultrapassou os EUA e se tornou a maior emissora. De um ponto de vista histórico, porém, os países menos desenvolvidos (80% da população) respondem só por um quinto do carbono extra lançado na atmosfera.

Sumidouros encolhem

Parte do carbono lançado pela humanidade na atmosfera é reassimilado por sistemas naturais, como oceanos e florestas. Mas essa parcela "neutralizada" está diminuindo: 50 anos atrás, 60% do emitido eram reabsorvidos; hoje, só 54%.

Isso tudo com o Protocolo de Kyoto, que previa redução de 5%, por países desenvolvidos, sobre os níveis de 1990. Imagine sem ele, como corremos o risco de ficar se fracassarem as negociações em curso pelos próximos 14 meses, diante da prioridade óbvia que a crise financeira norte-americana está assumindo.

De todo modo, se vier um acordo (o que é imprescindível; todavia, o imprescindível não aconteceu antes de 1914 e 1938), países como China, Índia e Brasil dificilmente escaparão de algum compromisso, mesmo porque nada aconteceria se eles também não agirem para reduzir suas emissões, com ou sem metas obrigatórias. Não é mais uma questão de política, mas de física.

Escrito por Marcelo Leite

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