
Texto de Sandra Assunção
Foto: Manoel aprendeu a extrair o óleo da floresta sem danificar as plantas
Copaíba, unha de gato, andiroba, açaí, patoá e buriti. Para as populações tradicionais das florestas e beiras de rios, os produtos são velhos conhecidos, seja para a alimentação ou fabricação de remédios naturais. Agora a maioria é cobiçada pelas indústrias de medicamentos e cosméticos. Mas como fazer para que a riqueza das matas sirva ao povo que mora nela sem que a natureza seja prejudicada? È possível desenvolver projeto em que os produtos florestais não madeireiros, como as resinas e os óleos, sejam a matéria prima de centenas de mini indústrias na floresta?
Para responder a estas perguntas e decidir pela implantação do projeto de produtos madeireiros não florestais na região do Vale do Juruá, técnicos do Sebrae estiveram na região fazendo estudo sobre a produção da unha de gato e do óleo da copaíba. De acordo com levantamento a região do Juruá tem uma das maiores concentrações de árvores de copaíba da Amazônia. Enquanto nas demais regiões, são encontradas duas árvores de copaíba por cada 10 hectares, aqui são seis árvores em 10 hectares. A unha de gato, um cipó, que lembra a forma da unha dos felinos, também é abundante. De acordo com a Associação dos trabalhadores do Projeto Vitória, em Porto Valter, só em 2004, foram comercializados cerca de 300 toneladas deste cipó.
De acordo com Carolina Gaia, gerente de atendimento coletivo e indústria do Sebrae, os estudos serão analisados pela diretoria da instituição, que dará a palavra final sobre a execução de fato do projeto dos produtos florestais não madeireiros.
"Se já há um ciclo econômico em torno do óleo de copaíba e uma de gato, o Sebrae poderá potencializar as iniciativas. Se a direção do Sebrae der o sinal verde, vamos desenhar o projeto junto com as comunidades que vão nos dizer sua capacidade e necessidade real", relata Carolina Gaia.
Se executado o projeto, o Sebrae vai estimular toda a cadeia produtiva, desde coleta e o processamento adequados, a prospecção de novos canais de mercados que paguem pelo diferencial dos produtos ambientalmente corretos e socialmente justos, além de buscar parceiros para investimentos em mini indústrias de óleos, ou de higiene e limpeza.
EMPREENDEDORES - Muitos ribeirinhos, ex-seringueiros e agricultores aprenderam a extrair resinas e óleos das espécies na mata e fazer sabão, sabonete e outros itens para as tarefas domésticas. Outros transformam os produtos em negócio, tornando-se pequenos empreendedores. Seu Manoel Bezerra de Souza, que mora em Mâncio Lima, há 50 quilômetros de Cruzeiro do Sul, é um deles. Seu Manoel conta que desde pequeno via a mãe fazendo sabão para suprir as necessidades domésticas. Passou a fazer experiências com o patoá, buriti, açaí, andiroba e a copaíba.
Não parou nas próprias experiências: foi em busca de especialização em Rio Branco. Fez oficinas na Fundação de Tecnologia do Acre, Funtac e na Universidade Federal do Acre, onde aprendeu a dominar a arte de retirar os óleos sem danificar a natureza e confeccionar os sabonetes e sabão. "Antes dos cursos para retirar o óleo da copaíba, derrubávamos a árvore inteira. Agora retiramos o óleo e a árvore fica na floresta para novas extrações", explica seu Manoel.
FUNDO DE QUINTAL - Hoje no fundo quintal de casa em Mâncio Lima, o empreendedor tem uma pequena fábrica de sabão e sabonete. Fabrica e vende cerca de 700 unidades por mês e cada sabonete custa R$ 2,50. A fábrica já gera três empregos diretos. "Além, disso compro toda matéria prima (copaíba, buriti, açaí, patoá) de famílias que vivem na floresta e são os coletores. Já é uma pequena renda para eles. Muita coisa que se perderia na mata, hoje sustenta várias famílias", relata seu Manoel.
Recentemente em um novo curso da Funtac seu Manoel a prendeu a fazer óleos de banho bi fásico e trifásico e xampu em barra. Além do talento para as essências, seu Manoel é também inventor. Muitos dos equipamentos da fábrica foram feitos por ele, como a depolpadeira de buriti. E os ensinamentos que adquiriu, seu Manoel Bezerra, repassa. Já ministrou oficina de extração de óleo para os índios Poianawa da aldeia Barão e para os Katukina, na Br 364. Na segunda semana de abril, vai ministrar curso de confecção de sabão e sabonete para prefeitura de Mâncio lima.
DEU NA GLOBO - Tanto talento não passou despercebido. Em dezembro passado seu Manoel mostrou seu trabalho para todo o Brasil por meio do programa Globo Repórter. "Depois da reportagem as vendas aumentaram e surgiram pedidos de Rio Branco, Porto Velho, São Paulo e Curitiba", conta ele.
Com a execução do projeto do Sebrae, milhares de pequenos empreendedores de produtos florestais não madeireiros, como seu Manoel Bezerra podem surgir na região do Vale do Juruá.
Seu Manoel, que já vende cerca de 700 sabonetes por mês e gera empregos, diz que o projeto do Sebrae é a "redenção para milhares de famílias que vivem na mata e sabe como gerar riqueza da própria floresta. Muitos têm o conhecimento e a vontade e com o apoio do Sebrae a tendência é de crescimento", analisa o pequeno empreendedor de Mâncio Lima, no extremo oeste do Brasil.






