Durante quatro longos anos, todas as vezes que o sol descansava sobre a copa das árvores distantes, após cumprir a monótona rotina de iluminar os passos dos homens, dezenas de loucos sonhadores no Juruá achavam que essa luz não era o bastante. Corriam para uma faculdade recém inaugurada, a Ieval. Queriam ser administradores num lugar onde a exploração do homem pelo homem não encontra paralelo em nenhuma outra região do país. Agora estão formados. Terminadas as comemorações vão perceber que caminham para um inevitável choque de gestão na terra onde imperam vícios do tempo dos seringais. Por causa desses loucos as reformas administrativas nas instituições chegarão aqui antes da estrada. É como se o tempo das trevas chegasse ao fim. Agora no Juruá não existe mais espaço para amadores.
No início de janeiro, o bispo Dom Mozé, em sua homilia durante a missa no Hospital Regional do Juruá, usou por analogia a citação bíblica que sugere que, como Cristo, devemos ser a luz do mundo. O reverendíssimo líder referia-se aos investimentos do Governo.
Com o devido respeito, quero falar de outra luz. A mitologia grega tipifica melhor que tudo esse clarão no Juruá. O poeta e dramaturgo grego Ésquilo, cerca de 500 anos antes de Cristo, nos conta que o titã Prometeu, filho de Jápeto e Ásia (filha de Oceano) e irmão de Atlas, roubou o fogo divino de Zeus para dar aos homens, para que esses evoluíssem e se diferenciassem dos animais. Como castigo Zeus ordenou que Hefesto o acorrentasse a um rochedo no cimo do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia (ou abutre) ia comer-lhe o fígado que, sendo Prometeu imortal, voltava a regenerar-se. A duração desta punição era para ser de 30.000 anos, mas Prometeu foi libertado do seu sofrimento por Hércules, que concluira os seus doze trabalhos e dedicara-se a aventuras. No lugar de Prometeu, o centauro Quíron deixou-se acorrentar no Cáucaso.
Professores como Gonzaga, Weiber, Rômulo, Uilton, Marcelli, Emerson, César, Ilson, Joana D´Arc, Cristina, Rosana e Leonardo, para citar só alguns, são uma espécie de discípulos de Prometeu, espalhando adiante o fogo do conhecimento. E se Prometeu, entre deuses e titãs, é o que melhor representa a humanidade, e por isso mesmo foi chamado de pai dos homens, não tenho medo de dizer que professores como esses da Ieval, da Ufac, e tantos outros, são, entre os homens, os que mais se aproximam da figura de deuses e titãs, embora esses não tivessem necessariamente que ser benevolentes ou precisassem assumir qualquer compromisso com a moral. Estavam acima disso.
Assim como os discípulos de Cristo são a luz que tira os homens das trevas do pecado e o arrebata para o paraíso espiritual, os discípulos de Prometeu trazem a luz do conhecimento para resgatar os homens da terrível escuridão da ignorância. Através desses professores Prometeu vinga-se de Zeus. Ainda bem.
Ilustrações:
Pintura: "Prometeu leva o fogo à humanidade", de Heinrich, Fueger 1817
Foto: Ângela Guimarães Salgado, após colação de grau pela turma de Administração em Gestão de Sistema de Informação, na Ieval


